Breve História da Música Sacra Até a Reforma Protestante

 BREVE HISTÓRIA DA MÚSICA SACRA ATÉ A REFORMA PROTESTANTE 

 

A música no Antigo Testamento

Religião e arte andam juntas desde o início do mundo. Deus tem um aguçado senso artístico. Em cada um dos seis dias da criação, Ele aprovou o que Ele mesmo tinha feito. Viu que tudo era bom, tudo era belo. A natureza, o ser humano e o Criador mantinham completa comunhão entre si. Mas, após o pecado, a relação entre o Criador e a criatura foi alterada e agora o homem tinha que dirigir-se a Deus através de ofertas e cultos.

A adoração não podia ser realizada na linguagem vulgar da vida cotidiana. Quando se dirigiam a Deus, as pessoas deveriam falar de modo diferente. Essa maneira de se expressar ficou conhecida pelo nome de “cantilena”. A cantilena era uma espécie de declamação cantada de um texto. Em Israel, as Escrituras não eram apenas lidas, mas cantadas, de modo a serem fixadas na mente do povo e transmitidas oralmente de geração em geração. Instrumentos musicais acompanhavam as cantilenas.

A música daquela época tinha algumas características interessantes:

  • A canção era construída a partir de um pequeno fragmento musical. As frases musicais eram curtas, o que facilitava a memorização.
  • O ritmo era inconstante, variava de acordo com as palavras. A música era completamente subordinada ao texto. O ritmo se adaptava à pontuação das palavras que se cantavam.
  • A música tinha um caráter de improvisação, no sentido de que o cantor poderia usar diferentes estruturas melódicas, desde que fossem compatíveis com o texto. Naquela época não existiam partituras como conhecemos hoje, mas havia acentos que indicavam quando levantar ou abaixar o tom da voz durante a leitura das Escrituras. A entonação era determinada pela estrutura da frase escrita.
  • Também havia uma certa liberdade de ornamentação vocal, desde que, claro, subordinada ao texto.
  • Eram usados os microtons – intervalos menores que o semito
  • A música era monofônica, ou seja, o canto era feito em uníssono. O conceito de harmonia surgiu muito mais tarde.

Registros de cânticos no Antigo Testamento

Os registros de cânticos no Antigo Testamento incluem tanto a música secular quanto a sacra. Alguns pesquisadores defendem que havia uma forma musicada de todo o Antigo Testamento. Isso é realmente muito provável, porque a música tinha grande importância em Israel, mais do que nas outras nações. Mas infelizmente não chegaram até nós registros da música daquela época, temos apenas as letras.

Ainda no Gênesis, capítulo 4, aparece o canto de Lameque, uma música de orgulho e vingança, em que ele explica porque matou um homem. No mesmo capítulo, a Bíblia afirma que Jubal foi o pai dos que tocam harpa, a primeira referência a instrumentos musicais na Bíblia. Nem Lameque nem Jubal eram tementes a Jeová.

O primeiro cântico inspirado por Deus aparece no capítulo 15 do livro de Êxodo. Foi composto por Moisés logo após a libertação de Israel no Mar Vermelho. Esse cântico é tão importante que vai ser entoado novamente pelos salvos no céu, de acordo com o capítulo 15 de Apocalipse. A Inspiração diz que o cântico de Moisés foi cantado por todo o povo de Israel na jornada pelo deserto.

“Enquanto o povo viajava pelo deserto, muitas lições preciosas se lhes fixavam na mente por meio de cânticos. Na ocasião em que se livraram do exército de Faraó, toda a hoste de Israel participou do canto de triunfo. Ao longe, pelo deserto e pelo mar, ecoava o festivo estribilho, e as montanhas repercutiam as modulações de louvor: ‘Cantai ao Senhor, porque sumamente Se exaltou.’ Êxodo 15:21. Muitas vezes na jornada se repetia este cântico, animando os corações e acendendo a fé nos viajantes peregrinos.” Educação, p. 39.

Na jornada pelo deserto outros cânticos foram compostos e ensinados ao povo de Israel. Por exemplo, o capítulo 32 do livro de Deuteronômio, com 43 versos, é conhecido como o canto do cisne, uma música que tinha que ser memorizada por todos os israelitas. O trecho dos versos 4 a 7 do capítulo de 6 de Deuteronômio, chamado de “schema“, era uma música cantada todos os dias pelas famílias israelitas nos cultos matutinos no deserto.

O Antigo Testamento registra cânticos de guerra, de triunfo, de marcha, de colheita, de trabalho, de amor, de lamento, de casamento e muitos outros. Haviam cânticos seculares para os diversos aspectos da vida em sociedade.

A música em Israel nos dias de Davi

A história da música antiga em Israel pode ser dividida em antes e depois de Davi. Durante o reinado de Davi foi implantado o ministério musical levítico. O número total dos músicos levitas era de 4 mil. Eles eram responsáveis pela música e atuavam em todos os cultos realizados no templo. O coro era formado por 288 componentes, distribuídos em 24 grupos de 12 pessoas. Os três cultos diários para os sacrifícios, juntamente com os cultos do sábado, exigiam que todos os grupos atuassem de alguma forma durante a semana. É provável que nas grandes festas todos atuassem juntos.

Os músicos levitas só podiam trabalhar no Templo com a idade de 30 anos. O tempo de serviço era de 20 anos. Aos 50 anos eles se aposentavam. O aprendizado musical específico durava 5 anos, aí não incluídos os anos da infância em que se aprendia os cânticos de Israel. A música do Templo era feita em uníssono, na maior parte do tempo em volume alto e tom agudo. O acompanhamento instrumental se fazia em uníssono ou em oitavas com as vozes.

Os levitas foram os responsáveis pela manutenção de uma tradição musical, pois possuíam treinamento e habilitação técnica. A Bíblia diz que eles eram escolhidos por Deus para o ministério da música (I Crônicas 6:31; 25:1). Além de possuírem o dom natural, eles estudavam e se dedicavam exclusivamente à música.

Davi foi um grande músico e líder. Ele selecionou pessoalmente os levitas para dirigirem a música no Templo. Os cantores Hemã, Asafe e Jedutum foram indicados como líderes dos músicos-instrumentistas. Todos eram liderados por Quenanias, que também dirigia o coro. Além dos músicos levitas, alguns sacerdotes tocavam as trombetas.

Os salmos

Não se pode estudar a música do antigo testamento sem se falar nos salmos. Os cânticos sacros do povo de Israel eram basicamente os salmos. Até hoje os salmos são cantados, ou seja, são usados para louvar a Deus há quatro mil anos, sem interrupção.

A principal obra que contém os salmos é o livro da Bíblia chamado “Salmos”, com 150 cânticos, que eram acompanhados por instrumentos musicais. Esses salmos foram compostos dentro de um período de mil anos. O primeiro deles é o salmo 90, escrito por Moisés. Os últimos, foram escritos depois do exílio, como, por exemplo, os salmos 126 e 137.

O maior compositor dos salmos foi Davi: 73 deles são de sua autoria. Os demais salmos foram escritos por diferentes pessoas, como, por exemplo, Salomão, Asafe e os filhos de Coré, dentre outros.

No início, os salmos eram cantados apenas pelos levitas no templo, mas depois a congregação passou a participar mais ativamente. Daí surgiu o canto responsorial, em que a congregação respondia com pequenas aclamações, e posteriormente o canto antifonal, com a repetição de refrões inteiros.

Durante o exílio na Babilônia, os salmos serviram de consolo para os judeus e se tornaram muito populares. Eram cantados nas festas religiosas nacionais e mesmo nas festas particulares.

Os salmos são uma poderosa ferramenta para a edificação espiritual. As suas letras são a base da devoção de muitas famílias cristãs. Nos salmos encontramos muitas doutrinas, mas acima de tudo, eles são um guia para a nossa comunhão com Deus nas horas de alegria ou de tristeza.

Música na igreja primitiva

Os primeiros cristãos eram judeus, falavam hebraico ou aramaico e continuavam a frequentar os antigos locais de adoração. Nessa época havia dois tipos de culto: o culto no Templo, mais organizado e ritualístico, e o culto nas sinagogas.

Com a pregação do evangelho aos gentios, o modelo do culto nas sinagogas foi estabelecido entre os cristãos. Não havia mais um quadro de levitas para conduzir a música; não havia um local onde a adoração se centralizasse. Os cultos eram realizados em ambientes menores e informais, nas sinagogas e nas casas dos crentes. As reuniões, conquanto impressivas, passaram a ser mais participativas, criando oportunidade para expressões musicais livres, o que permitiu o surgimento de um canto espontâneo e menos formal.

No entanto, a tradição musical judaica foi preservada. Ainda se usavam as cantilenas e o canto responsorial dos salmos. Os salmos continuaram a ser o livro de orações da Igreja. Mas os instrumentos musicais foram banidos do culto. Os cantos eram feitos a capella e em uníssono.

A ausência de instrumentos musicais ocorreu porque naquele momento o culto centralizava-se no ensino e na exposição da Palavra, mais associada à música vocal do que à música instrumental. Outro fator foi o zelo dos novos conversos. Eles entenderam que os instrumentos musicais estavam associados ao culto pagão e por isso não deveriam fazer parte do culto cristão. Os únicos registros do Novo Testamento sobre instrumentos musicais encontram-se no Apocalipse, mostrando que no Céu haverá música instrumental. Graças a Deus por isso!

O fato das músicas serem cantadas em uníssono tem uma razão curiosa. Os primeiros cristãos entendiam que somente a música monofônica, ou seja, o canto a uma só voz, podia expressar a unidade e a comunhão dos crentes.

Mudança no conceito de culto

No encontro com mulher samaritana, Jesus dissera que não importava o lugar da adoração, mas sim que ela fosse feita em espírito e em verdade. Depois, o apóstolo Paulo afirmou que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo. Essas declarações revelam uma mudança no conceito de culto. Os rituais e cerimônias perderam muito da sua importância. O que interessava agora era a obediência aos ensinamentos de Cristo. A vivência da fé era o novo foco.

Além da piedade individual, a comunhão entre os irmãos (koinonia) passou a ser valorizada. Nesse contexto, a música tornou-se uma ferramenta muito importante para manter e fortalecer a unidade da igreja, como afirma o apóstolo Paulo em dois textos bíblicos:

Colossenses 3:16: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.”

Efésios 5:19: “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.”

Em primeiro lugar, a música deve ser cantada no coração. O coração canta porque está cheio da presença de Cristo. Quando os irmãos da congregação estão cheios da presença de Cristo, eles se reúnem e cantam. Assim o povo de Deus manifesta a sua unidade através de uma linguagem comum: a música. O canto da igreja reunida permite que a igreja louve, agradeça e suplique a benção do Senhor. As melodias congregacionais simbolizavam o amor fraternal entre os irmãos. Os cânticos sempre tinham lugar nas reuniões cristãs.

Tanto Colossenses 3:16 quanto Efésios 5:19 sugerem os tipos de cânticos que os cristãos deveriam usar em suas reuniões. Paulo lembra dos salmos, que representavam aquilo que os judeus haviam herdado, mas ainda refere-se aos hinos e cânticos espirituais, que eram novidade.

Os novos tipos de cânticos surgiram em função de alguns fatores. O principal deles foi a necessidade de priorizar o ensino. Os primeiros cristãos precisavam “perseverar na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42). Por essa razão, nada mais sensato do que levar a igreja ao estudo das novas doutrinas cristãs, com ênfase no ensino da Palavra. Os hinos continham as verdades da fé cristã e serviam para o ensino.

Não podemos esquecer que a grande maioria da congregação era formada de pessoas iletradas. O Novo Testamento ainda não havia sido organizado e os pergaminhos do Antigo Testamento eram acessíveis a poucos judeus, então, os salmos e hinos foram usados como um meio eficaz para ensinar as verdades cristãs. Por isso eles eram repetidos. As letras das músicas constituíam um recurso importante para a disseminação do evangelho.

Outro fator importante para o surgimento do novos tipos de cânticos foi a maior espontaneidade das reuniões. Os cultos eram mais participativos. A ideia da koinonia, com a valorização do relacionamento entre os irmãos, fez brotar um novo estilo musical, chamado “cânticos espirituais”.

O quadro que acabamos de descrever permaneceu assim durante os primeiros séculos da era cristã. No final desse período, havia três possibilidades de apresentação dos cânticos: Cantus Responsorius, Cantus Antiphonarius e hinos métricos. Os dois primeiros representavam a tradição. O Cantus Responsorius foi herdado dos cantos judaicos: um solista cantava a cantilena, e era seguido pela congregação com um refrão, ou com um “Amém” ou “Aleluia”. O Cantus Antiphonarius, ou canto anfifonal, foi primeiramente usado por meninos e homens, que cantavam em oitavas. Combinava bem com os salmos e foi bastante usado pelos monges. Estudiosos dizem que Ambrósio, bispo de Milão, foi o principal responsável pela alteração do canto antifonal, moldando a forma com a qual o conhecemos até os dias de hoje.

Os hinos métricos foram trazidos pelos gregos. Como o próprio nome diz, eles possuíam métrica, que mais tarde seria um importante elemento musical.

O quadro que mencionamos acima refere-se ao período patrístico. O nome se deve ao fato de que, exatamente essa época, a igreja recebeu a influência muito forte dos chamados pais da igreja, teólogos de grande conhecimento que ajudaram a solidificar a doutrina e superar as heresias. No entanto, a ação dos pais da igreja acabou por lançar sementes que modificariam o quadro da música e do culto cristão. Eles se apegaram demais às tradições, criando regras que impediam a espontaneidade. Isso preparou o ambiente para o que aconteceria na Idade Média: a liturgia se transformaria em uma atitude clerical e a participação ativa dos leigos seria excluída no culto.

A MÚSICA NA IDADE MÉDIA

Gregório Magno, papa que viveu no século V e início do século VI, foi um dos principais responsáveis pela mudança da liturgia do culto na Idade Média. Ele promoveu a criação da Schola cantorum, um centro especializado no ensino de música vocal. Em pouco tempo, a música no culto perdeu a característica congregacional e passou a ser cantada apenas por profissionais da Schola cantorum.

O canto gregoriano predominou no seio da Igreja Católica durante a maior parte da Idade Média. Caracterizava-se por ser exclusivamente vocal – instrumentos musicais eram rejeitados. Era solene e severo, totalmente distinto da música secular. Não tinha divisão de tempo musical, nem compasso ou ritmo fixo. A melodia e o ritmo possuíam flexibilidade para se ajustar às sílabas do texto. O cântico era entoado em uníssono. Não se admitia nada diferente do modelo melódico criado por Ambrósio: linha melódica sem saltos ou grandes intervalos.

A congregação não tomava parte do louvor – a música era apresentada por homens integrantes do clero, que cantavam somente em latim, de modo que o povo não compreendia o que estava sendo cantado.

O monasticismo

A limitação da participação congregacional no culto se deve a alguns fatores. Talvez o principal deles tenha sido o monasticismo, movimento largamente estimulado pela Igreja na Idade Média. Os monges se retiravam das cidades e se isolavam nos mosteiros. Pensava-se que a verdadeira piedade consistia em estar isolado, dedicando-se à oração e à contemplação.

Tal pensamento repercutiu na própria concepção do culto: a dimensão individual passou a se sobrepor ao caráter comunitário da adoração. O culto se tornou clericalizado. Os monges tomavam conta da música sacra, eram eles que conheciam a notação musical, diferentemente dos músicos seculares, que podiam tocar e cantar apenas “de ouvido”.

A participação popular podia ser vistas nos “dramas litúrgicos” – representações teatrais de histórias bíblicas ou dos santos e mártires. Mas os dramas e as músicas que as acompanhavam eram executados fora do ambiente eclesiástico.

Para compreendermos o papel da igreja durante a Idade Média, devemos considerar o sistema eclesiástico de hierarquia, que excluía a figura do leigo. O povo era colocado na categoria de espectador. A Igreja caracterizava-se mais como uma instituição dirigida pela hierarquia do que uma comunidade de crentes salvos por Jesus.

Até mesmo a arquitetura refletia a nova concepção de culto. As naves dos templos passaram a ser cada vez mais longas, distanciando o povo do altar, o coral da congregação. Chegou-se a um ponto em que a participação máxima do povo na igreja era orar silenciosamente.

Por volta do século XIII a Europa entrou num período de grave declínio econômico, social e moral. As pestes aumentaram. Havia fome em todo lugar. Os monges passaram a ser vistos como uma classe privilegiada, abrigados em seus mosteiros. Tornaram-se impopulares. A simplicidade e a piedade deles haviam desaparecido. Preocupavam-se com as suas posses e não queriam saber das necessidades que o povo enfrentava. A Igreja de Roma estava cada vez mais corrompida. Os pecados dos papas eram conhecidos de todos. A corrupção se generalizava. Nessa época, a igreja estava em dificuldade financeira e decidiu ganhar dinheiro vendendo indulgências. O povo passou a ser ainda mais oprimido. Foi esse ambiente de degradação moral que abriu o caminho para a Reforma Protestante.

MÚSICA NA REFORMA PROTESTANTE

A Reforma Protestante do século XVI proporcionou uma mudança radical não apenas na teologia mas também na música. Embora diversos reformadores tenham se destacado na disseminação dos princípios teológicos da Reforma, na questão musical o crédito deve ser dado principalmente a Martinho Lutero, principal reformador na Alemanha.

A Reforma Protestante foi liderada por diferentes pessoas nos países da Europa, que pregavam a rejeição à corrupção da Igreja Católica e defendiam a doutrina da justificação pela fé. Mas havia diferenças entre eles, especialmente em relação à música: Calvino, por exemplo, não admitia a música instrumental no culto e só permitia melodias cujas letras transcrevessem textualmente versos bíblicos. Zwinglio foi mais radical: chegou a proibir a música no culto. Tanto Calvino quanto Zwinglio, e os demais reformadores, foram usados por Deus em diversos pontos, mas, no aspecto musical, Lutero destacou-se. Ele foi o responsável pela ampliação do uso da música e pelo resgate da sua função na Igreja.

Lutero promoveu a mudança mais radical que a música sacra já havia experimentado: estabeleceu o canto comunitário como ingrediente vital do culto, colocando a música nos lábios e nos ouvidos das pessoas, mas, principalmente, nos seus corações.

O canto pela congregação, algo inovador para a época, foi definitivamente estabelecido e hinários começaram a ser compilados. Os hinos eram escritos com arranjo para quatro vozes, feito em torno do cantus firmus, ou seja, a melodia principal.

Lutero desenvolveu a doutrina bíblica do sacerdócio geral de todos os crentes: cada pessoa, mesmo leiga, pobre ou iletrada, tinha acesso direto a Deus através de Cristo. Isso era algo totalmente novo na época. Essa doutrina estimulou a ideia de que os fiéis não deveriam permanecer passivos no culto. A visão do culto modificou-se. Na Idade Média, a missa era vista como um sacrificium, ou seja, um sacrifício oferecido a Deus pelos seres humanos; na concepção protestante, a missa passou a ser vista como um beneficium, ou seja, um presente de Deus para os crentes.

Assim, Lutero conseguiu promover a modificação da visão segundo a qual o culto era para ser “ouvido” por leigos e “executado” por profissionais. Ele compreendeu e inculcou nos fiéis a ideia de que no culto era a graça de Deus que se manifestava ao ser humano.

Lutero assentou o seu trabalho musical em três pilares: o uso da língua comum, uma melodia simples e o texto das Escrituras.

Lutero introduziu o canto congregacional no vernáculo, ou seja, na língua nativa das pessoas. Ele entendia que a participação através do canto era uma forma dos crentes expressarem sua nova condição de elemento ativo no culto.

Lutero raciocinou que não era suficiente as pessoas estarem presentes aos cultos: era necessário que as súplicas ressoassem de seus próprios lábios por meio de cânticos que traduzissem o arrependimento e a contrição das suas almas. Segundo ele, ao cantar melodias simples relacionadas ao dia-a-dia, o homem comum compreendia as doutrinas bíblicas.

Lutero valorizava a simplicidade da melodia, porque queria que o texto fosse compreendido claramente mesmo pelos que não sabiam ler. Esse fator foi extremamente importante para o sucesso e popularização da Reforma. O crente se sentia estimulado a aproximar-se pessoalmente de Deus, porque entendia o que era dito e cantado no culto.

Lutero queria que a música falasse sobre o evangelho diretamente às pessoas. Ele estava convicto de que a espiritualidade de uma congregação está diretamente relacionada com os hinos que ela canta. Se queremos que a espiritualidade reflita o evangelho, temos que escolher muito bem aquilo que cantamos.

Para alcançar os seus objetivos, Lutero procurou a ajuda dos melhores poetas e músicos da época, por ele escolhidos pessoalmente. Um dos seus colaboradores mais próximos foi Johann Walther, que compôs diversos dos hinos mais importantes da Reforma.

A música da Reforma Protestante herdou a tradição musical da Idade Média e da Renascença, que consistia no canto gregoriano e na polifonia, respectivamente. Nessas tradições, praticamente não havia espaço para a participação popular. Por outro lado, outra grande tradição musical da época da Reforma, a versão metrificada dos Salmos cantada em uníssono e a cappella, abria grandes possibilidades para o canto congregacional. Nessa tradição não havia espaço para a arte musical mais elaborada. Lutero usou ambas as alternativas, combinando a tradição musical mais artística e elaborada com o canto congregacional de cunho popular.

Os novos cânticos usavam uma notação não-rítmica, muitas vezes com melodias emprestadas da música secular. O resultado musical desta combinação foi o Coral Luterano, com os seus textos poéticos centrados no Evangelho e escritos na língua local, não mais em latim. As melodias eram vigorosas, com saltos e extensões de voz pensadas para o canto em grupo e com cadências (pontos de repouso) ao final das frases. As estruturas rítmicas eram fortes e baseadas em padrões de ritmo que se repetiam.

Essas características, somadas, resultaram em composições musicais em que o texto e a melodia formavam uma totalidade, de modo que o coral era percebido como algo familiar. Assim, a comunidade de crentes e os próprios músicos se sentiam confortáveis enquanto cantavam e tocavam.

Com o decorrer dos anos, a reforma na música foi levada adiante. Novos hinos foram compostos, hinários, publicados, e artigos sobre música, escritos. Mas Lutero não se importava apenas com os resultados musicais. Ele era um educador e se preocupava com a formação musical e o ensino. Defendia com firmeza que a música deveria integrar a educação das crianças e a formação de professores e pastores. Certa vez disse:

“A necessidade exige que a música permaneça nas escolas. Um professor deve saber cantar, do contrário não o considerarei. Antes que um jovem seja admitido ao ministério, ele deve praticar música na escola.” Aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs,1524.

Na concepção de Lutero, a música adequada para a liturgia é a que respeita os seguintes princípios: em primeiro lugar, ser um meio para o louvor e adoração a Deus; a seguir, um instrumento auxiliar à devoção e piedade do cristão e, por fim, um elemento eficaz na educação cristã e na propagação do evangelho.

Os hinos da Reforma foram uma ferramenta fantástica para a disseminação da mensagem central do movimento, que era a salvação pela graça de Deus, através da fé em Jesus. Esses cânticos enfatizavam a verdade de que a salvação não é recebida pelos sacramentos ou pelas obras humanas, mas através dos méritos de Cristo.

A música foi tão importante para o êxito da Reforma Protestante, que certa vez um padre jesuíta disse que os hinos de Lutero foram mais “danosos” às almas do que todos os seus livros e sermões.

Author

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *